A Estratégia dos EUA no Ártico: O Interesse pela Groenlândia e o Controle das Rotas Marítimas

A Groenlândia se tornou um foco de interesse para os EUA, que buscam controlar rotas marítimas no Ártico para limitar a influência da China. Especialistas destacam a importância geopolítica da região, especialmente diante das mudanças climáticas que tornam as rotas mais acessíveis.
Picture of Matheus Nascimento

Matheus Nascimento

Especialistas discutem as motivações por trás do interesse dos Estados Unidos na Groenlândia, com foco na geopolítica e na segurança internacional.

Nos últimos anos, a Groenlândia tem se tornado um ponto focal nas discussões sobre geopolítica no Ártico, especialmente em relação aos Estados Unidos e à China. Especialistas em relações internacionais avaliam que a intenção dos EUA de anexar a Groenlândia está diretamente ligada ao controle das rotas marítimas, crucial para dificultar a atuação da China na região. O Oceano Ártico, que conecta a Ásia, Europa e América do Norte, está se tornando cada vez mais acessível devido às mudanças climáticas, que estão derretendo as calotas polares, tornando as rotas comerciais mais viáveis e baratas.

A diminuição do gelo marinho, que está caindo a uma taxa alarmante de 13% por década, pode transformar o comércio global, permitindo que as nações acessem novas rotas mais rapidamente. Documentos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) sugerem que o Ártico pode ficar sem gelo entre 2050 e 2070, o que implicaria uma revolução nas atividades marítimas.

O major-general português Agostinho Costa, especialista em segurança e geopolítica, explica que os Estados Unidos já dominam a maioria das rotas comerciais globais, mas a presença no Ártico ainda é limitada. Segundo ele, a anexação da Groenlândia seria uma estratégia para bloquear a influência da China, que tem trabalhado em parceria com a Rússia para aumentar sua presença no Ártico. “Os EUA controlam os oceanos Pacífico e Atlântico, mas a presença no Ártico é praticamente nula. Essa situação é insustentável para eles”, afirma Costa.

Além disso, análises indicam que a rota do Ártico pode reduzir o custo do frete entre a China e a Europa em mais de um terço, um fator que não pode ser ignorado no contexto econômico global. O cientista político Ali Ramos destaca que a Rússia possui uma vantagem significativa na região, com mais bases militares do que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), o que lhe confere um controle estratégico sobre as rotas marítimas.

Em um documento do Departamento de Defesa dos EUA, publicado durante o governo Joe Biden, a importância do Oceano Ártico é ressaltada como uma resposta às ameaças geopolíticas, incluindo a invasão da Ucrânia pela Rússia e a crescente colaboração entre China e Rússia. O controle das rotas marítimas no Ártico poderia proporcionar à Rússia uma alavanca econômica e diplomática significativa, o que preocupa Washington.

Com apenas 56 mil habitantes, a Groenlândia é um território autônomo do Reino da Dinamarca e tem sido alvo de declarações ousadas por parte de líderes dos EUA, como Donald Trump. Desde seu segundo mandato, Trump expressou interesse em anexar a Groenlândia, uma proposta que gerou críticas até mesmo entre aliados europeus. Ele enfatizou a importância da Groenlândia para a segurança nacional dos EUA, citando a presença de navios russos e chineses na região.

Agostinho Costa menciona que a abordagem do governo Trump é reminiscentes de estratégias de séculos passados, onde o controle territorial e marítimo era um objetivo primordial. O major-general afirma que essa política se assemelha a práticas de pirataria do século 15 e 16, quando potências buscavam dominar mares e rotas comerciais.

Assim, a Groenlândia não é apenas uma ilha remota no Ártico, mas um ponto estratégico que pode alterar o equilíbrio de poder na geopolítica global. O futuro da região está intrinsecamente ligado às mudanças climáticas e às ambições de grandes potências, refletindo a complexidade da política internacional atual e as novas dinâmicas do comércio marítimo global.

Minha Rádio
AO VIVO