Especialistas discutem as motivações por trás do interesse dos Estados Unidos na Groenlândia, com foco na geopolítica e na segurança internacional.
Nos últimos anos, a Groenlândia tem se tornado um ponto focal nas discussões sobre geopolítica no Ártico, especialmente em relação aos Estados Unidos e à China. Especialistas em relações internacionais avaliam que a intenção dos EUA de anexar a Groenlândia está diretamente ligada ao controle das rotas marítimas, crucial para dificultar a atuação da China na região. O Oceano Ártico, que conecta a Ásia, Europa e América do Norte, está se tornando cada vez mais acessível devido às mudanças climáticas, que estão derretendo as calotas polares, tornando as rotas comerciais mais viáveis e baratas.
A diminuição do gelo marinho, que está caindo a uma taxa alarmante de 13% por década, pode transformar o comércio global, permitindo que as nações acessem novas rotas mais rapidamente. Documentos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) sugerem que o Ártico pode ficar sem gelo entre 2050 e 2070, o que implicaria uma revolução nas atividades marítimas.
O major-general português Agostinho Costa, especialista em segurança e geopolítica, explica que os Estados Unidos já dominam a maioria das rotas comerciais globais, mas a presença no Ártico ainda é limitada. Segundo ele, a anexação da Groenlândia seria uma estratégia para bloquear a influência da China, que tem trabalhado em parceria com a Rússia para aumentar sua presença no Ártico. “Os EUA controlam os oceanos Pacífico e Atlântico, mas a presença no Ártico é praticamente nula. Essa situação é insustentável para eles”, afirma Costa.
Além disso, análises indicam que a rota do Ártico pode reduzir o custo do frete entre a China e a Europa em mais de um terço, um fator que não pode ser ignorado no contexto econômico global. O cientista político Ali Ramos destaca que a Rússia possui uma vantagem significativa na região, com mais bases militares do que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), o que lhe confere um controle estratégico sobre as rotas marítimas.
Em um documento do Departamento de Defesa dos EUA, publicado durante o governo Joe Biden, a importância do Oceano Ártico é ressaltada como uma resposta às ameaças geopolíticas, incluindo a invasão da Ucrânia pela Rússia e a crescente colaboração entre China e Rússia. O controle das rotas marítimas no Ártico poderia proporcionar à Rússia uma alavanca econômica e diplomática significativa, o que preocupa Washington.
Com apenas 56 mil habitantes, a Groenlândia é um território autônomo do Reino da Dinamarca e tem sido alvo de declarações ousadas por parte de líderes dos EUA, como Donald Trump. Desde seu segundo mandato, Trump expressou interesse em anexar a Groenlândia, uma proposta que gerou críticas até mesmo entre aliados europeus. Ele enfatizou a importância da Groenlândia para a segurança nacional dos EUA, citando a presença de navios russos e chineses na região.
Agostinho Costa menciona que a abordagem do governo Trump é reminiscentes de estratégias de séculos passados, onde o controle territorial e marítimo era um objetivo primordial. O major-general afirma que essa política se assemelha a práticas de pirataria do século 15 e 16, quando potências buscavam dominar mares e rotas comerciais.
Assim, a Groenlândia não é apenas uma ilha remota no Ártico, mas um ponto estratégico que pode alterar o equilíbrio de poder na geopolítica global. O futuro da região está intrinsecamente ligado às mudanças climáticas e às ambições de grandes potências, refletindo a complexidade da política internacional atual e as novas dinâmicas do comércio marítimo global.







