Manifestações refletem a divisão interna e a tensão geopolítica no país persa.
Nos últimos dias, o Irã foi palco de grandes mobilizações em defesa do regime islâmico, que ocorreram no domingo (11) e na segunda-feira (12). Essas manifestações surgem em meio a um clima de agitação social, caracterizado por protestos que já resultaram na morte de centenas de pessoas, incluindo manifestantes e membros das forças de segurança. De acordo com estimativas não oficiais, o número de mortos ultrapassa 490.
Desde dezembro de 2022, o país enfrenta uma onda de revoltas populares, cujas causas estão ligadas ao aumento do custo de vida e à falta de recursos básicos, levando até mesmo o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a sugerir intervenções para “ajudar” os iranianos.
O governo iraniano, por sua vez, divulgou imagens que supostamente mostram manifestantes armados e envolvidos em atos de vandalismo, acusando-os de agir sob influência de forças estrangeiras. Esse discurso é utilizado para justificar ações repressivas contra os protestos, que a administração considera uma ameaça à segurança nacional.
Bruno Lima Rocha, jornalista e especialista em relações internacionais, destaca que a transição de um protesto legítimo para uma situação de conflito armado com a possibilidade de intervenção externa tem complicado ainda mais a situação. “A população se mobilizou em defesa da soberania nacional, mas a narrativa se tornou a de uma luta contra invasores estrangeiros”, explica.
“O cenário atual cria um consenso em torno da defesa do regime, enquanto marginaliza os protestos como traição à pátria.”
Recentemente, Trump indicou que os militares dos EUA estão considerando várias opções de resposta ao que chamam de ameaças do Irã, aumentando a tensão na região. Ele afirmou que uma decisão poderia ser tomada antes mesmo de uma reunião com líderes iranianos.
As Dinâmicas da Violência
Nesta segunda-feira, o Ministério das Relações Exteriores do Irã convocou embaixadores de países que expressaram apoio aos manifestantes para apresentar vídeos que mostram a violência dos últimos dias, onde manifestantes armados são vistos em ações que vão além do protesto pacífico.
O governo iraniano afirma que essas ações são organizadas e representam uma sabotagem ao Estado. O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, afirmou que os protestos pacíficos são aceitos, mas os distúrbios recentes são atribuídos a “terroristas” com apoio estrangeiro.
“Os terroristas têm causado mortes e destruições. Os serviços de segurança estão trabalhando para garantir a ordem”, comentou o presidente.
Autoridades locais acusam agências de inteligência dos EUA e de Israel de instigar os distúrbios, visando desestabilizar o governo iraniano, especialmente após tentativas anteriores de derrubar o regime sem sucesso.
Contexto Econômico e Geopolítico
Os protestos que começaram no final de dezembro foram motivados pelo fim dos subsídios para importação de alimentos, o que levou a um aumento considerável nos preços e, consequentemente, no descontentamento popular. Bruno Lima Rocha analisa que, embora o início dos protestos tenha sido pacífico e legítimo, a situação se deteriorou devido à repressão e à intervenção de grupos externos.
“A repressão inicial foi mínima, mas a escalada da violência e a frustração de setores da população, especialmente jovens, levaram a um clima de insatisfação generalizada”, afirma o especialista.
“O Irã sempre será um alvo para aqueles que desejam sua submissão ao imperialismo ocidental. A luta interna por recursos e poder também se reflete nas tensões externas.”
Se a situação no Irã não for abordada com uma estratégia que considere tanto as necessidades internas quanto a pressão externa, o país pode enfrentar um ciclo contínuo de protestos e repressões, com implicações significativas para a estabilidade regional.







